O Belo e a Consolação
"Ele viu que era bom, que a terra era deliciosa"
(Gênesis, 49:15).
A inspiração é uma coisa curiosa, o maior dos mistérios. Algumas obras-primas são escritas em um só dia, outras ficam anos e anos no útero da mente do criador até ver a luz do dia, outras ainda são feitas e refeitas ao longo de décadas. Poderia citar exemplos de cada um desses casos, mas seria só o pedantismo de sempre. Acho que é hora de abdicar dele, ninguém me olha mesmo. Ainda vou escrever sobre isso, a ausência de público, mas não agora. Quero falar sobre o ato de criar.
Me peguei pensando nisso, a criação, pois fazia muito tempo que não compunha. A última vez que o fiz foi no meu exílio brasiliense, e isso já deve ter uns quatro anos (como o tempo passa depressa! E com ele vou escorrendo célere o bastante para não perceber). De repente, sem pedir licença, a musa cantou para mim e em dois dias fiz duas canções e esbocei outras duas. Há algo de cabalístico nisso, se eu fosse místico acreditaria.
Mas a criação é mesmo coisa mística, no sentido literal, do mistério que a envolve. Me pergunto exatamente o que me fez voltar ao violão (e à violinha, essa nova melhor amiga, que pareço conhecer de outros carnavais). As razões podem variar entre um filme ou outro que vi nos últimos dias, uma lembrança que aflorou intempestiva, ou só o inconsciente falando depois de um longo intervalo.
Preciso me aprender
ainda. Como não sei ler partituras e mal entendo cifras é sempre caótico o
aprendizado daquilo que eu mesmo invento, por mais medíocre que seja o
resultado final. Se eu fosse um bom músico não seria tão difícil. De todo modo, por menor que
seja o mérito artístico, é bom estar de volta ao próprio chão.
Acho que a inspiração não é um mistério somente para as obras-primas, os mortais também têm direito a esta indagação. A beleza sempre nos consola, por isso a buscamos incessantemente. É brincar de Deus, fazer o papel de pequeno demiurgo, ver e julgar bom. Antes disso é a solidão de um criador desabrigado. A inspiração deve ser isso, o nome que damos ao processo, o fio que liga o belo e a consolação.

Felipe, por que você não compartilha conosco - que fazemos parte dos seus diferentes públicos - suas experimentações sonoras?
ResponderExcluirQuem sabe camarada. Preciso resolver meus problemas com exposição primeiro, acho que o blog é um pouco para isso, e conseguir meios de gravá-las decentemente também. Obrigado pelo comentário.
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