A face de Medusa


 Ainda agora, para aterrorizar e tolher de medo os seus inimigos,

ostenta no peito as serpentes que criou


Ovídio, Metamorfoses (Livro IV)


"Medusa" de Gian Lorenzo Bernini (1630)

Dos gregos e dos romanos herdamos a filosofia, a poesia, a democracia. Deles herdamos também o estupro. E Dentre as incontáveis histórias de violência sexual que preenchem os mitos greco-romanos uma é particularmente importante: a história de Medusa, a mulher que petrificava os homens. 

Conta o poeta latino Ovídio que havia uma mulher singular em sua beleza, que atiçava a cobiça dos nobres e cuja parte mais bonita do corpo eram os cabelos. Consumido pelo desejo de possuí-la, Netuno, o rei do mar, a violentou no templo de Minerva, a deusa da sabedoria. Como punição, os cabelos da vítima transmutaram-se em serpentes e quem a olhasse diretamente se converteria em frio mármore. Depois disso, muitos tentaram matá-la, tendo todos o mesmo destino: tornarem-se escultura de um sinistro museu da agonia. Até que ela foi vencida por Perseu, que a degolou utilizando o reflexo de seu escudo para mirar a lâmina de sua espada no pescoço de Medusa.


A culpabilização da vítima é velha conhecida de nossa espécie, é um dote de Minerva, da “sabedoria”. Perseu, o assassino; e Netuno, o violador, são cúmplices e agem, claro, em pleno acordo com a lei que emana dos templos. A vítima é incapaz de denúncia, pois rochas não têm ouvidos, pois quem se aproxima quer antes sua morte que sua vida. 

 

O mito demonstra que a teia do tempo borda sempre histórias antigas: a mais recente das nossas Medusas tem somente uma década de vida, seu algoz é o próprio tio (e outros familiares, segundo a própria delação deste). Seu aborto, assegurado em lei, quase foi sabotado por uma horda de Perseus que, incapazes de a encararem de frente, usam o escudo do moralismo para lhe deceparem a cabeça, ou, neste caso, o feto, caso este tivesse nascido. Exporiam seu útero como troféu, tal como a cabeça decapitada de um inimigo. A morte exposta como vida, e Medusa seguiria em sua rochosa mudez. 

 

A maioria das representações de Medusa desenha a face de uma vilã, quase sempre boquiaberta, exalando o hálito da loucura e da histeria, essa assassina de homens. Pois não basta culpabilizar, é preciso vilanizar a vítima. Poucos artistas escolheram retratá-la em sua tristeza, em sua solidão. Um dos raros exemplos é a Medusa de Gian Lorenzo Bernini. Quem se atrever a olhá-la de frente verá seu sofrimento. Que ele ceda vez à vingança.             

 

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