As vidas que importam
Há domicílio que mitigue a tua angústia?
Eurípedes, Medeia
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| "Medeia e a urna" (1873) de Anselm Feuerbach |
De todas as tragédias gregas que sobreviveram ao fogo do tempo Medeia, de Eurípedes, talvez seja a mais perturbadora. A história da mãe que resolve matar os próprios filhos para vingar a infidelidade do marido permanece horrorizando hoje o mesmo tanto que horrorizava seus expectadores há 2.431 anos atrás. Dois milênios e meio e continuamos sem domicílio para a angústia das vidas que nos são subtraídas.
Pois é justamente sobre isso que Medeia trata, sobre o valor da vida. Sobre a medida daquilo que deveria ter igual valor em todos, mas não tem. Algumas vidas valem mais, nos chocam mais quando cessadas. A morte dos filhos de Medeia nos choca, pois é impensável que uma mãe dilacere sua própria carne ao matar sua prole. Por outro lado, somos capazes de perdoar os outros assassinatos cometidos pela protagonista de Eurípedes em seu desejo de vingança. Conforme sintetizou o crítico Charles Segal: essa peça de Eurípedes nos convida a pensar a questão limite, quais vidas importam, quais mortes nos comovem.
A morte de George Floyd nos comoveu. Sua voz implorando pela vida enquanto um coturno policial lhe asfixiava era uma cena chocante demais mesmo para as mais insensíveis das mentes. Como no caso dos filhos de Medeia nós nos horrorizamos. O mesmo horror levou à reação imediata da sociedade civil norte-americana. Não uma ou outra passeata, não um ou outro protesto, mas mobilizações massivas incendeiam (literalmente) a América.
Por aqui, na terra de vera cruz, a comoção é semelhante. Igualmente importante, nas mídias sociais, esse espaço maravilhoso onde jovens de 30 anos podem viver sua adolescência tardia, subimos hashtags mimetizando o lema dos protestos norte-americanos: vidas negras importam. Aplacamos nossa boa consciência copiando e colando palavras de ordem que vem de longe. Copiando e colando, não raro, em bom inglês, para que soe bem compreensível à maior parte dos nossos patrícios.
Quanto valia a vida de Ágatha? Quanto valia a vida de Evaldo? João Pedro? Se já temos dificuldade de listar e lembrar as vítimas da nossa violência policial é porque elas, em verdade, não importavam. É porque elas não valeram mobilizações massivas na época de seu martírio: uma ou outra manifestação, um ou outro protesto. Ao contrário dos nossos primos do Norte, não somos incendiários afinal de contas. À semelhança daqueles que tanto criticamos, continuamos a pesar em arrobas algumas perdas. Nós, os filhos poupados da mesma insana matriarca.
Eu sei leitor, que você sentiu cada morte dessas como a de um ente próximo. Sei que a asfixia de Floyd foi sentida como as facadas em Moa do Katendê ou os tiros que alvejaram Evaldo. Não leve para o pessoal. É algo sistêmico a ver com nossa sociedade escravocrata, com nossa boa consciência senhorial, com nossa insensibilidade pátria, nosso capitalismo dependente. Pessoalmente, enquanto indivíduos, seguimos sem domicílio para a nossa angústia.


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