"Sofrimento sem fim"


                                        "Infância". Meninos Zoró em Rondolândia-MT. Fotografia cedida por Rodrigo Farhat.

 

 

“Vimos como os ‘civilizados’ narraram a epidemia de gripe que quase dizimou os Tapayauna. O ponto de vista dos índios, contudo, só seria mais bem documentado muitos anos depois. Em julho de 2011, a pesquisadora de Universidade de Brasília (UnB) Daniela Batista de Lima foi à aldeia kawêrêtxikô, no Xingu, onde passaram a viver os remanescentes do rio Arinos. Durante doze dias ela gravou o depoimento de uma Tapayuna anciã, Ngejwotxi. Depois obteve cópia do depoimento de outra idosa, Khôkhôtxi coletado em 2009 pela pesquisadora Marcela Coelho de Souza. As duas índias tinham entre 23 e 25 anos quando chegaram ao parque Indígena do Xingu. A memória de ambas descortinou a catástrofe.

Segundo as índias, vários Tapayuna doentes arrancavam cascas de árvore para passar pelo corpo, achando que assim se livrariam da gripe. Também apelavam aos pajés, chamados wajanga, impotentes para lidar com a doença. A certa altura da epidemia, índios encontraram crianças órfãs na mata, chorando pelos pais mortos. Os outros índios não conseguiram ajudar os pequenos, pois também estavam fracos e incapacitados. Era uma escolha dramática de quem iria sobreviver.  A índia Ngejwotxi contou o desespero:

[Palavras de Ngejwotxi]: ‘O bebê chupava o peito da mãe morta, chorando, cheia de abelha no rosto, nos olhos, entrando no nariz. E esses meninos e meninas de cinco anos acima, eles seguiram, mas não chegaram na aldeia, não alcançaram o pessoal e foram morrendo no caminho. [...] Aquelas crianças sem pai e mãe. Meninas e meninos de três e quatro anos, eles ficaram pra lá sem dormir, chamando ‘pai, mãe, aonde vocês foram?’”. 

A passagem acima é um trecho do livro Os fuzis e as flechas – História de sangue e resistência indígena na ditadura (2017) de Rubens Valente. Anotação minha feita em grafite ao lado do depoimento de Ngejwotxi: “Sofrimento sem fim”.

Achei que a situação dos índios durante a atual pandemia mereceria um texto, porque afinal de contas a pena com a qual escrevo tem plumagem de abutre. Foi então que peguei alguns livros de história indígena que li nos últimos anos e passei meus olhos em suas páginas, incluindo nisso o trabalho de Valente. Ao fazê-lo percebi que aquilo que eu tencionava expor já havia sido há muito revelado.

Deve ser sempre assim com os temas sensíveis da história. O problema do historiador talvez seja esse: ao deter-se no passado ele acaba por testemunhar o futuro. Uma testemunha ocular passiva e, por isso mesmo, quase sempre dispensável.

 


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