Reliqua Desiderantur


 

O metal mais valioso, o tempo. O mais rígido também, pois as horas não se curvam à nossa vontade, ao contrário dos demais metais elas são rígidas demais para forjar qualquer coisa que não seja ausência. Talvez por esse motivo Faulkner chamou o relógio de “mausoléu da esperança”, porque ele guarda nossa própria consumação, a ausência que seremos.

Tendo isso em conta, nunca entendi a razão de tanto festejo pelo fim do ano, olhamos para o túmulo da expectativa ansiando justamente seu contrário, renovação, esperança. No fim das contas é apenas uma atualização dos imemoriais rituais onde nós, macacos pelados, pedíamos a algum deus alheio um pouco de piedade. Falhávamos miseravelmente, é claro. Para o nosso azar ele seguirá impassível em sua indiferença, é só o dia seguinte afinal de contas.

Morro a cada instante em que penso nisso, bem como renasço a cada nova conclusão quando lembro cada projeto maquinado e abandonado ao longo de um ano, de um dia, ou de algumas horas. Quão essenciais não seriam eles. Não é por acaso que as grandes obras são geralmente inacabadas: a sinfonia nº8 de Schubert, Os Irmãos Karamázov de Dostoiévski (muita gente esquece, mas o velho russo planejou um segundo volume), O Capital de Marx (a maior ironia dos marxistas é essa, ver "sistema" naquilo que sequer foi terminado), o Tratado Político de Espinosa, e por aí vai.

Reliqua Desiderantur, disse o judeu excomungado polidor de lentes. Em bom português: “o resto falta”. Sempre falta, Espinosa. Sempre. Nunca temos o suficiente. Você que trabalhava polindo lentes de relógios deve ter entendido isso melhor que ninguém.

Se é assim para os gênios – incapazes eles próprios de domar o tempo e de finalizar os seus projetos – imagine para nós, meros mortais. É por isso que desejamos feliz ano novo, que ansiamos pelo fim. Enxergamos como uma nova oportunidade de consumar as coisas, arrumar as pendências, para falharmos miseravelmente ao fim e ao cabo, pois vida nova não vai sair de um sepulcro, o relógio.

Alguns preferem ficar de fora desse ritual, não pedir piedade ao estranho deus que nos governa. De todo modo, seja para os indiferentes ou para os entusiastas, o resto sempre seguirá faltando.

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